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O ARTISTA ENQUANTO COISA


A cena: Um beijo é pedido entre uma bebida e outra para apagar a saudade que existe, mas uma pergunta congela: “pra que isso agora?” E isso joga por terra toda e qualquer saudade. Não era só a negação de um beijo, mas a negação de todo o afeto. (ABRANCHES, 2012, prelo)

Cabe-nos uma breve apresentação do artista. Esse que anda perscrutando sua mente e vasculhando cada centímetro cúbico de segredos. Segredos e mentiras, simulacros e incertezas. Quem vos fala retornou do inferno e deve confessar que lá era quente demais. Custo ainda a me acostumar ao clima por aqui. Voltei, mas ainda não sei se foi por mérito ou excesso de contingente. Voltei para resolver pendências e dar às coisas algum sentido próprio.

Tenho uma teoria: de que a felicidade é dada a todos no momento de seu nascimento, porém na forma de bagatelas. Recebemos a felicidade aos poucos, em parcelas, nunca a vista. Passamos toda a vida desejando quitação de saldo, mas esse banco não permite negociações.

Faço milhares de elucubrações poéticas. Dou imensas voltas só para não passar nos mesmos lugares, nas mesmas lembranças. E essa característica, as lembranças, na verdade, é o arcabouço onde todo artista trabalha. Vivemos de recordações, rememorações, lembranças ou de nossa pura e simples capacidade de criar.

O que está por vir, essa sensação de realizar-se que parece sempre tão urgente e tão premente e nunca acontece. Esse gozar a qualquer custo. Numa cansativa tentativa de superação. Superar a si próprio. Reinventar-se com tamanha criatividade para tornarmo-nos verdadeiros agentes e não apenas reagentes, acríticos e impulsivos.

Quem vos fala quer dissecar o artista enquanto coisa. Assim, talvez restituí-lo de certa dignidade perdida. Perdeu-se na luxúria, volúpia contagiante e enganadora, desviando a atenção do sujeito. Transformando-o, vitimando-o.

Arrumando as estantes notei a literatura que me acompanhava já há algum tempo. No gotejamento de ideias  releio as coisas com um olhar totalmente novo. Fico impressionado com a capacidade metamorfoseante que possuímos.

Os eventos que devem ocorrer para nossa verdadeira transformação de nível de consciência são inumeráveis, transcendentes e transdisciplinares. Nos alteram completamente. E as transformações são tantas que por vezes não nos reconhecemos. Perdemo-nos então, para o mundo, se isso equivale a nos acharmos ÍNTIMA E PESSOALMENTE.

NÓS NA COMUNICAÇÃO


Que se danem os nós[i] já cantava Ana Carolina e os nós que falamos são esses que perturbam a clareza de nossas falas. E sofrendo de kinking[ii] essa obstrução nos impede uma visão inclusiva e nossos fluxos de pensamentos ficam divagando nesse universo paralelo de impedimentos e dissimulações.

Estando no mundo somos sujeitos numa miríade de situações e quer sejamos agentes ativos ou passivos, agentes ou reagentes nossa contribuição na dinâmica das relações sempre ultrapassará a condição de apenas vítimas. Claro que existem vítimas verdadeiras e não estou desmerecendo a história de ninguém, mas qual será a relação de simbiose estabelecida? Porque simplesmente não nos livramos daquilo que nos incomoda?

Percebo que nosso grande temor está fundado nas mudanças, uma quebra do paradigma reinante que provoca desconforto e nos obriga a tomadas de decisão, nos tira de uma pseudossegurança. Então baseados numa política de “ruim com ele, pior sem ele” deixamos que os nós sejam criados.

Gastamos nosso tempo a retocar a maquiagem de nossos atos. Deixando-os  belos e cheios de justa causa. Chegamos a ter a presunção de acharmo-nos os mais sofredores do universo. Partindo do princípio da causalidade, aquilo que nos provoca  é nossa motivação para a ação num determinado sentido, sentido esse positivo ou negativo, conveniente a quem quer que seja. Então pensemos como desatar esses nós, como desobstruir o kinking que não deixa que o oxigênio chegue a nosso cérebro?

Passeava entre os espaços nos discursos para verificar quantas vezes não há tempo para respirar ou justamente o contrário, ficamos ligados, tão ligados que metralhamos o outro e assim produzimos imensas ondas de fluxos de narrativas que pululam para além do óbvio ululante[iii].

Contrastemos no raio-X de nossas mentes para acharmos a fonte de nossas obstruções e uma vez que somos a soma total do que pensamos e agimos baseados nesse conjunto de crenças, necessitamos pensar claro, preciso e focado tomando consciência que assim como somos atados, somos capazes de desatar os próprios nós que criamos.



[i] Título da canção de Ana Carolina no CD Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina, Rio de Janeiro: BMG, 2001

[ii] Kinking – do inglês: dobradura, volta, prega, nó.

[iii] Recomendo a leitura de Óbvio Ululante de Nelson Rodrigues Editora Companhia das Letras, 1993.

Um novo mapa


A verdadeira comunidade entre os homens deve basear-se em interesses de caráter universal. Não são os propósitos particulares do indivíduo, mas os objetivos da humanidade que criam uma comunidade duradoura entre os homens.  I Ching, hexagrama 13 (Tung Jên/Comunidade com os homens) 

Quanto mais alta a posição na escala evolucionária, maior liberdade de reorganização. Uma formiga submete-se a um destino; um ser humano modela o seu. 

A evolução é um contínuo romper e unir, para produzir conjuntos novos e mais ricos. Até mesmo nosso material genético está em fluxo. Se tentarmos viver como sistemas fechados, estamos condenados à regressão. Se ampliarmos nossa percepção, admitimos novas informações e nos aproveitamos da brilhante capacidade do cérebro de integrar e harmonizar,  podemos saltar à frente. 

O intelecto deve ser e será, futuramente, absorvido e sintetizado pela faculdade intuitiva do nosso ser. Isso permitirá que o sentido de vida grupal e coletiva cresça constantemente em importância da humanidade. 

Uma vez que esta capacidade de intuição esteja  mais completamente desenvolvida, seremos capazes de manter uma visão da integridade da vida e de se realizar, ao mesmo tempo, uma tarefa relativa ao bem-estar do conjunto.

O desenvolvimento da verdadeira intuição é uma faculdade inclusiva da percepção. Quando a conexão com a verdadeira intuição se completa, a pessoa tem a habilidade de perceber aquela qualidade de energia que vitaliza toda forma de expressão. Esse é o tipo de sintonia que, por exemplo, faz com que uma pessoa perceba a consciência de um autor e compreenda as suas palavras. 

Uma personalidade desenvolvida e útil requer uma atitude de desapego amoroso. 

O desenvolvimento de uma humanidade forte, unificada e criativa exige que cada um faça sua parcela individual na obra única da evolução humana. Estamos vendo ser dada, como nunca antes, uma grande ênfase na responsabilidade individual para a criação de caminhos criativos e espirituais. A grande diferença entre a espécie de responsabilidade individual exigida agora e a do trabalho individual que era necessário no passado tem muito a ver com esse tipo de participação como um agente de individuação. 

O uso do trabalho — meio de vida correto — como um caminho para a individuação do espírito criativo em cada um de nós não era um conceito posto em prática. Hoje é. Isso quer dizer que as pessoas estarão buscando significados mais inerentes à maneira como ganham a vida de modo que quem se é e o que se faz seja equilibrado e integrado. 

É de vital importância que nos tornemos conscientes dos vários níveis nos quais, e através dos quais, participamos nos relacionamentos. Devemos então nos empenhar para tornar os fios destas ligações verdadeiramente conscientes e vivos. Para termos um correto relacionamento humano com qualquer outra pessoa, primeiro precisamos tê-lo com nós mesmos. 

A vontade é a expressão objetiva da causalidade e, portanto, é impulso criativo, é bastante óbvio que uma pessoa não pode co-criar seu próprio destino e assumir um papel ativo e responsável no desenvolver do destino do coletivo se o poder de vontade pessoal não for desenvolvido. 

À medida que trabalhamos para nos alinhar com nossa realidade e auxiliarmos com confiança os outros e os aconselharmos nessa mesma orientação, estaremos procurando maneiras de implementar uma maior medida de vontade para o bem em nossas vidas. Uma delas requer que não julguemos a nós mesmos com muito rigor, mas que, todavia identifiquemos na nossa personalidade o que inibe um maior florescimento da boa vontade. Um sentido de separação e do egocentrismo, expectativas de como as outras pessoas deveriam ou não se comportar, especialmente com nós mesmos, são algumas características que precisam ser transformadas para que a força de vontade seja mais inteiramente expressada como um atributo do Amor: hostilidade, preconceito e intolerância pelas diferenças das outras pessoas são outros fatores inibidores da manifestação da força e do poder da boa vontade em nossas vidas. Além disso, podemos trabalhar diretamente no cultivo daquelas características que servem para canalizar a boa vontade para as nossas vidas. Estas incluem, primeiro e principalmente, um espírito de serviço e de generosidade para com os outros. Adicionalmente, e especialmente na nossa era, é importante fomentar uma consciência bem definida da nossa fraternidade universal. 

O pensamento chave na implementação de um empenho grupal é cooperação, não competição. A cooperação grupal é fomentada pelo Amor, pela meditação, partilha, percepção silenciosa e comunicação. A crítica, a devoção e o apego a ideais pessoais e a afirmação de preferências pessoais dominantes criam obstáculos à cooperação e promovem a competição. 

Quanto mais conscientes nos tornamos, mais podemos atuar dentro de uma maior totalidade do plano e, desse modo, chegarmos a co-criar o direcionamento evolutivo. Isso acontecerá para cada um de nós à medida que nosso propósito de ser nos for diretamente revelado através dos nossos esforços no crescimento e no serviço ao mundo.

 


Continuação... Implementando Comunicação


Parte 2
A mágica da interação humana faz toda a diferença.

A importância de desenvolver nos estudantes autoconfiança, iniciativa, bondade, espontaneidade, expediente, coragem, criatividade, responsabilidade e alegria — uma elevada combinação. 

Pressuposições do novo paradigma do aprendizado:

·         Ênfase em aprender a aprender,  como fazer boas perguntas, prestar atenção às coisas certas, manter-se aberto aos novos conceitos e avaliá-los, ter acesso à informação. O que agora se “sabe” pode mudar. A importância do contexto.

·         O aprendizado como um processo, uma jornada.

·         A experiência interior é encarada como contexto para o aprendizado. Uso de imagens, relatos de histórias, diários de sonhos, exercícios de “centralização”, e encorajamento à exploração de sentimentos.

·         Encorajamento das conjecturas e do pensamento divergente como parte do processo criativo.

·         Empenho pela educação para todo o cérebro. Aumento da racionalidade do cérebro esquerdo com estratégias holísticas, não-lineares, intuitivas. Ênfase na confluência e fusão dos dois processos.

·         A rotulação tem apenas um papel prescritivo mínimo e não é uma avaliação fixa que arruína a carreira educacional do indivíduo.

·         Preocupação com o desempenho do indivíduo em termos de potencial. Interesse em testar os limites exteriores, transcendendo os limites visíveis.

·         O conhecimento teórico e abstrato amplamente complementado por experimentos e pela experiência, não só nas salas de aula como fora delas. Viagens de estudo,  introdução a novas experiências, demonstrações, visitas a especialistas.

·         Preocupação com o ambiente do aprendizado: iluminação, cores, arejamento, conforto físico, necessidade de privacidade e interação, atividade calmas e fartas.

·         A educação é vista como um processo que dura toda a vida, relacionado apenas tangencialmente com a escola.

·         Tecnologia apropriada. O relacionamento humano entre professores e alunos é de fundamental importância.

·         O professor é um educando também; aprendendo com seus alunos. 

O educador que não é aberto pode encher o aluno de informações, do mesmo modo que os cidadãos de uma ditadura, são incapazes de transmitir suas necessidades e sua disposição a quem supostamente deve facilitar-lhes o crescimento. É como a diferença entre um alto-falante e um radiotransmissor-receptor.

 

O professor aberto, como o bom terapeuta estabelece um relacionamento harmônico e a ressonância, pressentindo necessidades não-verbalizadas, conflitos, esperanças e temores. Respeitando a autonomia do educando, o professor passa a maior parte do tempo ajudando a formular as perguntas prementes, e não exigindo respostas corretas. 

A escolha do momento e a comunicação não-verbal são críticas. O educando sente que a sua disposição é percebida pelo professor, sente a confiança ou ceticismo deste. “Lê” as suas expectativas. O verdadeiro professor intui o nível de disposição, em seguida avalia, questiona, conduz. O professor concede tempo para a assimilação, até mesmo para um  recuo, quando o processo se torna difícil demais.

Assim como não é possível “ministrar” a saúde holística, que deve iniciar-se com a vontade do paciente, o verdadeiro professor sabe que não se pode impor o aprendizado. O que é possível, como disse Galileu, é ajudar o indivíduo a descobrir o conhecimento que tem dentro de si. O professor aberto ajuda o educando a descobrir padrões e conexões, estimula novas possibilidades desconhecidas e facilita o surgimento de idéias.

O professor é um timoneiro, um catalisador, um facilitador — um agente do aprendizado, mas não sua causa principal.

A confiança se aprofunda com o tempo. O professor se torna mais sintonizado, e um aprendizado mais rápido e vigoroso pode ocorrer. Um professor apto a tal sintonização obviamente deve ter um saudável índice de autoestima, pouca defensividade, poucas necessidades egocêntricas. O verdadeiro professor deve ser capaz de deixar passar, de errar, de permitir ao educando outra realidade. O educando que foi encorajado a escutar a autoridade externa é sempre provisória e temporária. Como diz o provérbio oriental: Se você encontrar Buda no caminho, mate-o.

O professor com uma nova consciência não exige que você se vista com o mesmo tipo de roupa, coma o mesmo tipo de comida, tenha o mesmo tipo de orientação sexual ou aja de qualquer outro modo que acentue uma exclusividade exteriorizada, separatista.  Alan Oken

Implementando comunicação - Um protótipo



PARTE 1

PARADIGMAS

Um paradigma é uma estrutura de pensamento. É um esquema para a compreensão e a explicação de certos aspectos da realidade.
Uma mudança de paradigma é uma maneira clara e nova de pensar sobre velhos problemas. Perguntamos, por exemplo, como poderemos obter recursos adequados para a saúde pública, em vista dos custos cada vez mais altos do tratamento médico. A pergunta equaciona, de forma automática, saúde com hospitais, médicos, remédios e tecnologia. Porém, o que deveríamos perguntar é, em primeiro lugar, como as pessoas adoecem. Qual a natureza do ser saudável? Ou discutimos sobre quais os melhores métodos de ensino para os currículos das escolas públicas, embora raramente se discuta se eles são, de fato, adequados. E mais raramente ainda perguntamos: qual é a natureza do aprendizado?

 As crises nos mostram as formas como as instituições têm contrariado a natureza. Relacionamos a boa vida com o consumo material, desumanizamos o trabalho e o tornamos desnecessariamente competitivo, somos impacientes com relação à nossa capacidade de aprender e de ensinar. Cuidados médicos muito dispendiosos pouco têm avançado contra moléstias catastróficas e crônicas, ao mesmo tempo que se vão tornando cada vez mais impessoais e incômodos.

Um novo paradigma envolve um princípio que sempre existiu, mas do qual não nos apercebíamos. Aceita o que existia como verdade parcial, como um aspecto de como as coisas ocorrem, admitindo que ocorram também de forma diferente. Por sua perspectiva mais ampla, transforma o conhecimento tradicional e as novas e persistentes observações, conciliando as aparentes contradições.

O novo paradigma é mais produtivo que o antigo. Prevê com mais precisão. E, além do mais, escancara portas e janelas as novas explorações. Tendo em vista o maior poder e o maior alcance da nova idéia, poderíamos esperar que rapidamente triunfasse, mas isso quase nunca acontece. O problema é que não se pode aderir à nova idéia sem se descartar da antiga. Não se pode ficar oscilando entre as duas, fazendo-se a modificação pouco a pouco. Como numa troca de Gestalt, a mudança deve ocorrer de uma só vez.

O novo padrão não é racionalizado, e sim percebido repentinamente. Os novos paradigmas são quase sempre recebidos com frieza, até mesmo com zombaria e hostilidade. Suas descobertas são atacadas como heresia. (Como exemplos históricos, basta lembrarmos Copernico, Galileu, Pasteur) De início, a idéia pode parecer bizarra, até mesmo vaga, porque seu descobridor deu um salto intuitivo e ainda não dispõe de todos os dados.

A nova perspectiva exige tal mudança que reputados cientistas raramente são convertidos. Aqueles que trabalharam de modo frutífero com as velhas idéias estão emocionalmente e por hábito ligados a elas. Normalmente levam para o túmulo sua fé inabalável. Mesmo quando confrontados com numerosas provas, aferram-se teimosamente ao que está errado mas lhes é familiar.

O novo paradigma, no entanto, ganha ascendência. Uma nova geração reconhece seu valor. Quando considerável quantidade de pensadores tiver aceitado a nova idéia, produziu-se uma mudança coletiva de paradigma. Um número suficiente de pessoas foi atraído pela nova perspectiva, ou se desenvolveu com ela, formando um consenso. Após algum tempo, também esse paradigma é abalado por contradições; surge uma outra abertura e o processo se repete. É assim que a ciência gera de modo ininterrupto novas idéias e amplia seus conhecimentos.

O progresso real na compreensão da natureza raramente é quantitativo. Todos os avanços importantes são intuições repentinas, novos plenamente esse processo de saltos para frente, em parte porque os compêndios tendem a abafar revoluções — sejam culturais, sejam científicas.

Continua...

Por uma questão de gosto


Como montamos a decepção, afinal qual será o ideário que buscamos? Seria esse um ideal alcançável? Questionamentos que pairam sobre a mente. Porém, o que verdadeiramente faz-nos meditar é que sequência de autossabotagem estamos aplicando? Porque será que os amigos não ficam? Porque será que os “amigos” nunca são os amigos que imaginávamos?

O Dalai Lama em uma de suas palestras fala muito eloquentemente sobre viver na equanimidade. Nos aconselha a recuar “da proximidade dos sentimentos, da proximidade dos amigos e da distância dos inimigos”. Ele nos diz que “o apego aos amigos e o desagrado dos inimigos são um entrave”. Se esses são então os entraves a nos impedirem de progredir então tornemo-nos laissez-faires e esqueçamos de tudo então. E tudo vira vento e vento voa e leva tudo. A poética do uso, mas em momento histórico de ecologia precisamos aprender a reciclar. Nossas amizades precisam se tornar biodegradáveis, deixando assim de poluir nossas mentes. No mundo líquido que vivo desaprendi de amar. Acabei tornando-me um arquetípico impotente amoroso, como já falava Bauman.

Lembro-me então de uma colocação de Jung que é muito adequada a essa situação, na qual ele diz que “nós só descobrimos o que realmente nos sustenta quando tudo o que mais pensávamos nos sustentar, não sustenta mais”. A pilha do meu controle remoto acabou. E só vejo luzes de infravermelho a me atravessarem. Acabo vendo tudo em quadrados, acabo sendo controlado.

Levei muitos anos realmente para entender o que era o significado de ser arrimo de família. Custou-me as mais variadas decepções no mundo material para compreender onde estava toda a minha fonte de energia. Onde verdadeiramente sou quem sou sem nenhuma máscara ou fantasia. Ou fantasia mesmo, do super herói que sou no imaginário de algumas pessoas que me querem: rico ou pobre, feio ou bonito, triste ou alegre por uma simples questão de gosto.

Este texto é dedicado a um amigo que esteve comigo entre os anos 2005-2010, AAS, que me ensinou muitas coisas, inclusive um novo conceito de mim mesmo. Sinto imensamente que nossa amizade tenha se partido, mas desejo-lhe sorte e let go and let God.




Certa vez participei de um processo seletivo e num dado momento me deparei com uma situação um tanto inusitada, pois o entrevistador ao elogiar meu currículo disse: “você é um profissional multitarefa, sabe fazer várias coisas, com esse currículo pode ser professor, coordenador, contador, analista de RH,  mas que garantias você me da, se eu te contratar para trabalhar de segunda a sexta, de que você não irá procurar bicos aleatórios no fim de semana”? Como estou sempre atendo a tudo que me acontece, não poderia deixar de observar algumas questões nesse contexto. Senti-me incomodado de início ao perceber o quanto é difícil ser claro.

Com o tempo ganhei mais lucidez e passei a ver com outros olhos. Precisamos organizar nosso conceito sobre as coisas, para então, darmos sentido àquilo que fazemos. O profissional multitarefa é aquele com a habilidade de executar várias atividades simultaneamente, no meu caso, profissões, inclusive. Eu precisei muito novo me tornar autodidata para suprir minha fome de conhecimento e minha falta de recursos financeiros. Acabei com o tempo me arrependendo às vezes dessa habilidade, que muitas vezes me tirou de situações difíceis, porque a gente não se encaixa em alguns sistemas e isso custa tempo, sofrimento e algumas perdas.

Então tendo posto isso gostaria de dar algumas dicas para aqueles que se encaixam no perfil:

·         Aceite que você tem uma capacidade extraordinária de aprender e que isso facilita sua vida, inclusive te dando mais tempo de viver outras coisas, mas não ache que isso é infalível.

·         Não se vanglorie por isso, aja com humildade.

·         Guarde suas grandes ideias para momentos e pessoas adequadas. Você corre o risco de parecer soberbo se algo for dito ou feito em momento inadequado.

·         Muitas vezes nós, os multitarefas, nos sentimos menosprezados, desvalorizados no campo profissional. Preste atenção às suas atitudes. Nem sempre suas grandes ideias são exatamente o que sua empresa, seu empregador precisa. Esteja consciente de seu real papel nessa engrenagem.

·         Mas suas ideias são fantásticas, ainda é melhor guardá-las para um momento adequando, ou melhor, aventure-se em seu próprio negócio. Lá suas ideias serão seu norte, realizá-las sua missão.

·         Incentive sempre, porque pessoas iguais a você, a mim, existem milhares, muitas vezes precisando apenas de orientação.

Ainda engatinhamos na área do empreendedorismo, nossas escolas e universidades continuam ainda nos preparando apenas para o emprego, embora o número de pequenos negócios cresça continuamente, que a economia criativa mostre a direção, temos um longo caminho a trilhar e fazer uma boa viagem também depende de você.

Tenha cuidado então para não ser questionado à respeito de bicos aleatórios. Para mim, custou tempo e suor para ter o quadro completo. Aprendi que não faço nada sem propósito e foi somente quando compreendi isso que minha bússola indicou o norte corretamente. Então esse sentido de missão, de propósito de vida preencheu as lacunas. Nesse momento parou de reverberar na minha mente de mind the gap e já não sinto mais medo.

Um último ponto para reflexão diz respeito a onde está fundada nossa vontade. Preciso ser reconhecido no trabalho para quê? Para me tornar o pequeno novo tirano? Espero que não, pois já existem tiranos demais precisando ser destronados. E para vivermos um novo ideário de justiça e equanimidade precisamos começar revendo nossa vontade.

Pense nisso e dê feedback quando quiser.


Ao mestre com carinho


 
Acordei hoje com uma sensação de plenitude ao completar meus 21 anos de sala de aula. Comecei a lecionar ainda criança, aos 19, mas já começara apaixonado. Paixão avassaladora, continua a me embriagar, pois como diz Castoriadis sou apaixonado por essa dimensão  da existência humana, o saber.

Sempre digo que não escolhi a profissão, mas que na verdade ela me escolheu. Quando dei por mim estava completamente  envolvido no processo ensino-aprendizado. Sempre em busca de despertar meu aluno para saber sempre mais. Muitos deles se tornaram amigos, parte da família. Alguns que mesmo com a distância não esquecem de mandar um olá. Muitos que vejo progredirem e me despertarem a sensação de pai orgulhoso.

Nos últimos anos estive envolvido com tantas outras coisas e pouco tempo passei em sala de aula. Isso de certa forma criou uma pequena ausência, uma pequena falta. Mas hoje acordei com aquela sensação de realização, de completude. Visitei os escaninhos de minha memória e repassei vários momentos felizes, aulas memoráveis. Descobertas, pesquisas, resultados, carinho e muito amor. Assim posso descrever minha experiência.

Me apropriando de Castoriadis novamente que diz: "se pude fazer alguma coisa em minha vida, foi graças a meus pais, mas graça também a esta chance, no curso (...) da educação (...) de minha infância e de minha adolescência, de ter a cada ano, entre dezenas de professores que tínhamos, pelo menos um pelo qual eu estava, de certo modo, apaixonado".

Meu obrigado especial a Vera, Angela e Antônio Carlos, meus queridos professores de língua portuguesa, que plantaram as bases do meu gosto pela leitura e pela escrita, desde o Liceu São José ao Colégio Novo Horizonte. Aos queridos alunos obrigado pelo privilégio e aos colegas FELIZ DIA DOS PROFESSORES.

Marcos Marques

Entrevista sobre Empreendedorismo Social



Entrevista que concedi aos alunos da Universidade Estácio de Sá, campus Presidente Vargas no Rio de Janeiro para falar sobre o Empreendedorismo social e sustentabilidade.

ALUNOS ADM ESTÁCIO: O que levou o Sr.  a ser um empreendedor Social?
MARCOS MARQUES: A paixão.

AAE: Existe diferença entre ser Empreendedor Social e ser Empresário?
MM: Não no meu ponto de vista, mas aí precisamos fazer algumas distinções. Uma delas se refere à questão conceitual. Antigamente usávamos o termo filantropo. Trocamos então a palavra para investidor social, tirando assim a ideia assistencialista e dando uma real visão de negócio. Empresário é todo aquele indivíduo que possui uma empresa. Empreendedor é um termo que empregamos para falar daquele que investe em inovação, coloca esforços para empreende uma ideia.

E hoje essa dicotomia também está sendo resolvida com a questão da Responsabilidade Social/ambiental a que todas as empresas precisam se adequar.

AAE: Qual seu plano de negócio, e suas principais atividades?
MM: O objetivo da OCM é criar negócios que proporcionem a preservação da cultura, promova o desenvolvimento local, o empreendedorismo, a economia criativa. Hoje, além de projetos específicos como manter uma biblioteca, fazer concursos, estabelecemos o desenvolvimento de conteúdos. O que faço muito baseado em minha experiência como palestrante, professor e escritor.

AAE: Que importância tem em seu negócio as relações públicas e as redes sociais?
MM: É de fundamental para a compreensão do Terceiro Setor sua função de mediador. É fazer o que precisa ser feito, com eficiência, dentro dos prazos para o bem comum.

AAE: Como nasceu esse espírito empreendedor?
MM: Nasceu comigo. Venho de uma família de pais humildes com uma formação moral muito consistente. Meu pai cedo teve seu próprio negócio e minha mãe mesmo sendo apenas uma dona de casa (e não que isso fosse pouco) sempre nos incentivou a estudar, estudar e estudar. Um mito que precisa ainda ser derrubado em nossa cultura é o de que empreendedor é aquele que não conseguiu emprego formal. Primeiro é preciso entender que não temos uma educação para a autonomia. Durante muito tempo fomos educados a procurar um bom e estável emprego e de preferência no setor público. De repente temos essa conversa de crescimento econômico, ser um dos BRICS, mas não estamos sendo preparados para isso.

AAE: Qual a sua motivação principal?
MM: Tenho como meta ser o que Gandhi diz: a diferença que quero ver no mundo, e falo isso da forma mais pragmática possível. Essa é minha religião. Acredito que podemos mudar e isso começa comigo. Isso que me motiva, esse é meu exercício diário.

AAE: Está satisfeito com seu Empreendimento?
MM: Claro que sim, mas muito precisa ser feito. Preciso de recursos, preciso consolidar algumas idéias, envolver mais pessoas.

AAE: Recebeu algum recurso para iniciar seu Empreendimento?
MM: Não, inicialmente todos os recursos aplicados foram meus e no que amadurecemos (eu e o negócio) encontramos maneiras criativas para sobreviver. E gostaria de chamar atenção para esse elemento como o que na verdade forja o empreendedor: a criatividade

AAE: Quais são os seus conselhos para as pessoas que querem iniciar um negócio na área Social?
MM: O mesmo que daria para outro segmento de negócios: pesquisar, estudar e trabalhar duro. Estabelecer metas viáveis, aferir os resultados alcançados, erros cometidos. Fazer uma verdadeira arqueologia. Negócios são feitos disso, 10% de talento e 90% de muito esforço.

AAE: E quando você precisa de guia ou conselho, onde o encontra?
MM: Sou um homem das letras e mantenho uma bibliografia que consulto com frequência. Seja por causa de um projeto que penso, um livro que estou escrevendo, uma palestra a ministrar, ou por puro prazer, a leitura é fundamentalmente minha conselheira. Agora tenho meus mentores, professores, alunos, amigos, alguns outros empresários que são também minha fonte de inspiração e conselho.

AAE: Há algum Órgão ou Associação que ajuda a quem quer iniciar um Empreendimento Social?
MM: Sim. Recomendo o SEBRAE, Instituo Ethos, Abong, o RITS. 

AAE: O Sr. acredita que há muitas oportunidades para este tipo de Empreendimento? Como avalia o mercado?
MM: Sim. Em franco desenvolvimento. O Brasil tem uma lacuna enorme a ser preenchida e só conseguiremos isso com o fomento de grupo. Só teremos a combinação de crescimento com desenvolvimento econômico quando entendermos nossos papéis. E não falo só de abrir uma empresa com a sigla ONG, mas falo de empresas socialmente responsáveis que geram riquezas tangíveis e intangíveis para a comunidade.

AAE: O Srº. Acha que os Empreendedores Sociais podem criar a mudança em larga escala?
MM: Obviamente que sim. A questão é só saber qual é o processo de formação dessa vontade de mudança. E nesse caso ela deve servir ao bem comum. Li há muitos anos um livro que foi e é até hoje fonte de inspiração que fala sobre o fenômeno social, dessa coisa de: “pessoas comuns, em lugares comuns, fazendo a diferença”. O livro é A Conspiração Aquariana da Marilyn Ferguson.

AAE: Empreendedor social deve gostar do que faz, ou fazer o que gosta?
MM: Ambos. E muitas vezes precisa aprender essa diferença e integrá-las ao seu plano de negócios. Quando você é empregado você é contratado na expectativa de cumprir um checklist e será remunerado por aquilo, ao se tornar empreendedor você será remunerado pela realização das suas visões e seu checklist é muito maior. É uma questão de escolha.

AAE: Que seria o sucesso para você? Onde deveria estar seu negócio daqui a cinco anos?
MM: Sucesso pra mim é está realizando um ideal de valor. É saber que preservamos a água de um rio, que fiz uma criança sorrir. É saber que alguém respirou aliviado por que você se importou. Daqui a 5 anos deve estar mapeando seus feitos, produzindo conhecimento e preservando os valores comunais que fizeram que o próprio negócio surgisse.

AAE: Você tem um website, blog, ou perfil social onde possamos ver algo sobre você ou seu projeto?
MM: http://casademiguel.org, http://marcosmarques.livejournal.com.

 

Agradecimentos a: Eduardo Lima, Maria Helena Rodrigues e Sandro Mendes de Oliveira alunos dos cursos de Administração, Secretariado executivo trilíngue e Ciências atuariais, campus Presidente Vargas - RJ.


Falando de Motivação



VOCÊ TEM MEDO DO QUÊ?

 

 

No mundo contemporâneo da globalização somos compelidos a demonstrar uma maestria contínua em diferentes afazeres, sejam eles na vida doméstica ou corporativa. Na prática de sala de aula, em meio as palestra e treinamentos que costumo ministrar observo as pessoas ávidas em busca de um elixir da felicidade. Na verdade as pessoas procuram recursos externos quando tudo que elas precisam aprender é acessar seus próprios recursos.

Motivação é essa tendência para a ação por causa de uma necessidade. E suprir necessidades se torna então o elemento fundamental para a sobrevivência. A tese defendida nesse trabalho é de que somente através do autoconhecimento teremos condições de nos editar no mundo. E nessa arqueologia dos conceitos efetivamente proporcionarmos uma mudança. Assim, vivermos em plenitude o escrito na entrada do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”.

O que vivemos é o resultado de nossas aspirações, mas e se aspiramos uma vida de passividade e descompromisso? Bem, acho que todos sabem a resposta. Por isso precisamos desenvolver o poder do pensamento claro, complexo e focado.

Para falarmos de motivação precisamos definir nossas metas e visões. Quando chegamos a um acordo de bem estar, de bem fazer somos banhados com as dádivas das virtudes, pois finalmente sabemos onde queremos chegar e porque chegar onde queremos é tão importante.

Dando importância para o seu dia a dia, deixando de ser apenas empurrado pelas circunstâncias, definindo o rumo que as coisas vão tendo nos alinhamos com forças poderosas que nos levam ao sucesso, ou ao fracasso, pois, como defendemos nesse livro, tudo reside no modo como narramos os fatos.

A energia despendida em odiar, invejar, menosprezar é a mesma que pode ser direcionada a amar, admirar e prezar. Falamos que motivação é a vontade de suprir uma necessidade. Necessidades satisfeitas não motivam mais e nesse momento entramos na roda da vida de novos propósitos, novas conquistas.

Esse ciclo infindável faz-nos pensar por um momento se haverá uma satisfação completa, mas saímos da idade da pedra por causa desse instinto criativo, evoluímos e cabe a nós a responsabilidade de utilizar nosso córtex pré-frontal com sabedoria.

Ao propormos o autoconhecimento defendemos que faz-se necessário uma honestidade e clareza que deve fundar nossa relação conosco e com o mundo.


Introdução do livro Motivação: Você tem medo do quê? no prelo



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